Coisas do Circo
Bem prega S. Tomás
João Duque enche-se de razão, como se a razão fosse insuflável, e demonstra “cientificamente”.
Por:Emídio Rangel, Jornalista
As pancadas de Molière e… uma comédia trágico-cómica. Portugal é assim… e pronto. Estamos sempre no palco pelas mais inusitadas questões, mas só sabemos fazer comédias. A tragédia do desgraçadinho, a arrogância do espertalhão e umas frases soltas que desencadeiam barrigadas de riso cultivado na miséria do nosso dia-a-dia. Imaginem só que tenho assistido pela televisão às arengas moralistas do Professor João Duque, presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão. Ele e Medina Carreira, ao desafio, têm desancado no Governo, sem dó nem piedade.
Sócrates e Teixeira dos Santos aparecem na boca destes senhores como uns malvados que gastam à tripa forra o dinheiro dos contribuintes em projectos delirantes. São responsáveis pelos desperdícios que o Estado ineficiente gera insensatamente. Só se preocupam em arranjar tachos para os seus boys, etc. etc. Quem ouve João Duque falar "não o leva preso". Ele enche-se de razão, como se a razão fosse insuflável, e demonstra "cientificamente", como vem nos grandes tratados de Economia, que vamos parar à bancarrota porque o Estado Social é uma miragem, na outra margem, que nos consome o dinheirinho todo. Evidentemente que, pouco tempo depois, vi-o a aconselhar Pedro Passos Coelho, com mais uns tantos economistas, entre eles Medina Carreira e Eduardo Catroga, que afinam pelo mesmo diapasão.
Claro que o Prof. João Duque tem esta inclinação (a vida é um plano inclinado) mas não tem telhados de vidro, pensei eu, nem faz favores aos amigos e correligionários. Pois bem, chegou-me ontem às mãos a segunda série do Diário da República, de 26 de Maio de 2010, onde se publica o despacho nº 9405/2010, assinado pelo Prof. Doutor João Duque, que diz o seguinte: "Por despacho do Presidente do Conselho Directivo do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa, de 01/09/08, proferido por delegação do Reitor da mesma Universidade, de 25/05/2007: Eduardo de Almeida Catroga – contratado, por conveniência urgente de serviço, em regime de contrato administrativo de provimento, para o exercício de funções de Professor Catedrático Convidado, a tempo parcial 0%, além do quadro deste Instituto, com efeitos a partir de 01/09/2008. (não carece de fiscalização prévia do T.C.). 26 de Maio de 2010 – O Presidente da Escola, Prof. Doutor João Duque." O que dizer? Catroga, contratado para além do quadro, a tempo parcial 0% (o que quer isto dizer?) e ainda por cima com efeitos retroactivos a 01/09/2008! Alguém pode explicar-me o que isto é e quais são os efeitos deste despacho? Estamos a falar de despesa pública, certo?
O Dr. Eduardo Catroga lecciona no ISEG gratuitamente. É isso que significa tempo parcial a 0%. Todos os docentes universitários são além quadro, excepto os Professores Associados e Professores Catedráticos