Entrevista: Paulo Macedo
"Maior desafio é dar a todos médico de família"
Paulo Macedo, ministro da Saúde, faz balanço do ano. Um dia depois da entrada em vigor das novas taxas moderadoras, confessa que foi a medida mais difícil que tomou
Por:Sónia Trigueirão / João Saramago
Correio da Manhã – As novas taxas moderadoras entraram ontem em vigor. O Fisco vai investigar as contas bancárias para calcular quem fica isento?
Paulo Macedo – Com base no número de beneficiário e a declaração de rendimentos de cada cidadão, o Fisco dirá apenas sim ou não quanto ao direito do utente à isenção. O Ministério da Saúde não pede nem terá acesso aos dados fiscais do utente. Apenas receberá um sim ou não sobre o direito do cidadão à isenção do pagamento de taxa moderadora.
– Considera os valores justos?
– Posso garantir que tentámos encontrar a solução mais justa possível. Mas quem governa tem de olhar para o interesse colectivo, mesmo que para isso tenha que tomar opções menos bem recebidas. Tudo o que é essencial continuará a ser fornecido.
– Qual a medida que foi mais difícil de tomar até agora?
– As medidas penalizadoras dos cidadãos e de outros intervenientes no sistema de Saúde. A alternativa era deixar os hospitais seguirem o caminho da falência técnica e continuar com um défice do Serviço Nacional de Saúde não sustentável e não financiável, ou seja, seria o seu fim. Mas a medida mais difícil foi a de aumentar as taxas.
– Porque deu prioridade à política do medicamento?
– Porque achámos que podíamos intervir com muitos benefícios para os utentes. Introduzimos medidas que permitem o acesso a medicamentos mais baratos. Alterámos a política do medicamento de modo a facilitar o acesso aos genéricos. Reduzimos os preços e passámos a monitorizar mais eficazmente as receitas, combatendo as fraudes.
– Que desafios tem pela frente?
– Decidir sobre um conjunto de estudos, nomeadamente a carta hospitalar que nos vai dar um retrato claro sobre a gestão, a oferta e a procura hospitalar. Temos também de combater o desperdício. Recentemente três estudos mostram que podemos poupar cerca de 700 milhões de euros por ano em desperdício. Mas o maior desafio da minha legislatura é dar a todos os portugueses um médico de família. E não tenho dúvidas de que o conseguirei. Será também um dos maiores contributos para a sustentabilidade do SNS.
"LABORATÓRIOS COMPREENDEM O MOMENTO"
CM – Como vê a ameaça dos laboratórios de saírem do País?
P. M. – Espero que não aconteça qualquer corte de fornecimento aos doentes por parte dos laboratórios. A indústria tem compreendido o actual momento do País e penso que ainda podem dar um contributo significativo.
– Qual o futuro do transplante hepático pediátrico?
– É nossa intenção e já tivemos sinais de que será possível proceder à realização de transplantes hepáticos pediátricos nas unidades que fazem os de adultos. A casuística e o tipo de procedimento cirúrgico aconselham que seja assim. Queremos uma verdadeira escola e não persistir na dependência da boa vontade ou do interesse de uma pessoa.
"PERCEBO A CONTESTAÇÃO E ESTOU ATENTO A ELA"
CM – Receia a contestação das pessoas?
P. M. – Não se trata de recear quando estamos certos de que é este o caminho. Percebo a contestação em certos casos e estou atento a ela, procurando minimizar na origem as razões desse descontentamento. Também saberemos estar atentos aos interesses que usam as ansiedades das pessoas, e as provocam, manipulam e tentam desviar--lhes a atenção do que é mesmo importante: a manutenção de um SNS com os resultados de saúde que conhecemos e de que não queremos abdicar.
– Como vai conquistar os médicos? Vai ceder nas horas extraordinárias?
– O meu papel não é conquistar médicos, eles já estão "conquistados" pelo seu trabalho, e a larga maioria é de um empenho notável. Temos de continuar a dar--lhe as melhores condições para exercerem a sua digna profissão ao serviço dos doentes e no contexto que o País atravessa.
PERFIL
Paulo Macedo, natural de Lisboa, nasceu a 14 de Julho de 1963. Licenciado em Organização e Gestão de Empresas e pós-graduado em Gestão Fiscal, foi director-geral dos Impostos de 2004 a 2007.
Pois é srº.ministro.Muito fácil é falar,e impor regras que apenas se reflectem nos que menos podem.Porque razão o srº.não corta nos que têm mais de uma pensão assim como as Vitalícias?Esses não vão aos hospitais públicos