Entrevista
Teresa Leal Coelho: "É preciso sangue novo na PGR"
Teresa Leal Coelho, autora do relatório das secretas, critica Pinto Monteiro e diz que há interesses instalados na Justiça
Por:Manuela Moura Guedes/ Paulo Pinto Mascarenhas
Correio da Manhã - Foi a autora do relatório das secretas. Com que ideia é que ficou do seu funcionamento?
Teresa Leal Coelho - Tive a percepção de que se detectam vulnerabilidades cíclicas nos serviços de informações, sempre que há mudança do poder político, o que é intolerável.
- Porquê quando muda o poder?
- Parece-me que têm expectativas de alteração ou instrumentalização política dos serviços em função da mudança.
- E assistimos a esta guerra novamente num momento em que muda o Governo...
- Uma mudança de Governo que não alterou o secretário-geral do SIRP, Júlio Pereira. O primeiro-ministro manteve a confiança no secretário-geral do SIRP. Este Governo não tomou nenhuma medida para ter homens de confiança.
- O ex-director do SIED, Jorge Silva Carvalho, não estava pensado para ser o homem das secretas?
- Não. Isso é uma falsa questão.
- Era próximo de Passos Coelho...
- Não é verdade.
- Mas não participou no programa do PSD?
- Jorge Silva Carvalho não participou no programa do PSD. Deixe-me desmentir de forma categórica essa relação.
- Não há relação de proximidade entre os dois?
- Não existe, nunca existiu. Não significa que não se tenham cruzado.
- Sente-se confortável como deputada de um grupo parlamentar cujo líder faz parte de uma organização secreta como a maçonaria?
- O líder parlamentar não é membro de nenhuma loja maçónica. Luís Montenegro participou em duas ou três reuniões de uma loja maçónica, mas não aderiu. Sinto-me muito confortável com o Luís Montenegro como líder parlamentar, porque me identifico com os seus valores. Neste processo de promoção da transparência, é sempre o primeiro a dizer "avancemos", "aprofundemos".
- Vão avançar com algum projecto para um registo de interesses dos deputados em relação à maçonaria ou a outras sociedades secretas?
- Em determinados sectores, temos de ser particularmente rigorosos sobre essa matéria, nem que seja com códigos internos. Tenho encontrado nas magistraturas, tal como encontro na PSP, uma geração empenhada em mudar o estado das coisas.
- O PGR faz parte das mudanças necessárias?
-A mudança do PGR pode trazer um novo alento à Justiça. O PGR não tem dado os melhores exemplos. Ainda esta semana deveria ter comparecido na 1ª Comissão para responder sobre o relatório da política criminal, que é da sua competência exclusiva, e não compareceu. Mandou a vice-procuradora. O PGR deixará de o ser em Abril ou em Outubro. Não sabemos. É preciso sangue novo.
"A JUSTIÇA ESTÁ DOENTE"
CM - Porquê criminalizar o enriquecimento ilícito só agora?
- Foi defendido antes pelo PSD, mas não houve condições, vontade política. O PS rejeita totalmente este diploma. As pessoas não acreditam na Justiça.
- Mas assiste-se a enriquecimentos muito estranhos...
-É verdade, e eu penso que muitas investigações têm sido levadas a cabo, mas não temos chegado a bom termo. A Justiça em Portugal está doente.
- A Justiça está prisioneira de alguns interesses?
- A ideia que dá é que há alguns interesses instalados, uns de natureza corporativa, por interesses económicos.
- Porque há muita gente que enriqueceu ilicitamente...
- A percepção que eu tenho é que há muita gente que enriqueceu ilicitamente em Portugal. O modo de vida de alguns não é compatível com os seus rendimentos legítimos.
PERFIL
Teresa Leal Coelho nasceu a 29 de Março de 1961 (50 anos) em Lisboa. Eleita deputada pela primeira vez nas últimas eleições legislativas, a 5 de Junho de 2011, é vice--presidente da bancada do PSD. Licenciada em Direito e constitucionalista, é docente na Universidade Lusíada de Lisboa. Em 2001, fundou com Pedro Passos Coelho o movimento ‘Pensar Portugal'.
Sangue novo...coragem e quem entrasse por empenho e vocação e não por cunhas. Ponham lá quem não nasceu em berço de ouro e que saiba o que é ser do Povo.