Jardim Gonçalves ataca Constâncio e o antigo governo
"Houve todo um processo cientificamente dirigido” (COM VÍDEO)
O ex-presidente o BCP recorda o período de convulsão que mudou o poder accionista no banco, fala da polémica reforma, dos custos familiares e analisa o novo Executivo.
Por:Armando Esteves Pereira/Diana Ramos
Correio da Manhã - As acções do BCP estão abaixo dos 40 cêntimos. Que comentário é que isto lhe merece?
Jardim Gonçalves - A cotação do título não se discute. É uma vontade que o mercado expressa sobre o valor do título. Em relação ao BCP, há que ponderar uma série de circunstâncias. Em primeiro de tudo, a valorização do título está em Portugal. É a partir da casa-mãe que é feita a consolidação de todo o grupo Millennium, e se Portugal sofre, os títulos originados neste País também sofrem. Agora, tem havido uma série de acontecimentos à volta do BCP que não motivam perspectivas de que toda esta crise não venha a afectar o título. O Millennium tinha a consciência de que a sua sede era Portugal, e Portugal era um país com limitações, vulnerabilidades e dependências daquilo que acontecia no primeiro mundo, e procurava estar presente em vários mercados. Daí que uma Turquia que cresce, um Canadá que é rico, Macau, que é uma excelente plataforma para certos negócios, e até os Estados Unidos sejam territórios dos quais o Millennium se afastou
- Foi um erro vender estas participações?
- Eu não qualifico de erro. O que digo é que, naturalmente, o título BCP sofre...
- Mas a desvalorização do BCP em Bolsa, nos últimos anos, tem sido muito acentuada. Não tem ocorrido só nos últimos meses.
- Aí há uma componente importante, que são os resultados.
- E poderá haver também alguma descredibilização da gestão actual do banco?
- Sobre a gestão do banco, só posso ter qualquer intervenção em assembleia geral. Publicamente, não darei qualquer sinal de avaliação em relação a quem administra o banco. Agora há um facto: uma instituição quando não pode apresentar resultados ou quando não pode apresentar um futuro que lhe dá prémio, evidentemente, o título sofre.
- De qualquer maneira, há uma grande turbulência em volta do BCP...
- Mas aí, quem tem de falar sobre a turbulência e procurar entender os motivos dessa turbulência são os órgãos sociais do BCP. Eu, a partir do momento em que saí, não sei o suficiente para saber explicar o que classifica de turbulência.
- A estrutura accionista actual vê reduzida a posição que Joe Berardo tem no banco. É de alguma forma um ajuste do poder que o comendador tinha ganho nos últimos anos?
- Eu não falo do accionista A ou B. O que efectivamente aconteceu, e que hoje está a ser percepcionado pelo mercado, é que os reguladores e o Governo sabiam que tinham dois problemas em dois bancos pequenos. E um deles aproximou-se de mim...
- Está a falar do BPP?
- BPP e BPN. Eram dois bancos pequenos, mas que tinham grandes problemas .
- Mas quem se aproximou de si foi o BPP...
- Foi o BPP. É público. [João Rendeiro] foi a primeira pessoa que foi à televisão dizer que a era de Jardim Gonçalves acabou. E o que era preciso era controlar duas grandes instituições que pudessem resolver e absorver estes dois bancos menores. Na minha análise, é isto.
- Está a falar do governo de José Sócrates?
- Sim, até agora.
- E o ministro das Finanças já era Teixeira dos Santos...
- Certo.
- E está também a falar de Vítor Constâncio...
- E também do dr. Carlos Tavares, que é o regulador dos mercados. Foram pessoas que antes de qualquer conclusão e de qualquer acusação fizeram uma acusação pública como não fizeram de mais nenhuma instituição nem de nenhuma outra empresa cotada. Só em relação ao BCP, onde nunca houve problemas de solvabilidade, onde nunca houve problemas de segurança em relação aos depósitos, aos clientes e aos seus accionistas, é que houve acusações públicas dificilmente reparáveis. Pode ser reparável a fama, pode ser reparável o património, mas não é reparável o tempo... Não falo tanto de mim, mas de muitos outros que eram administradores do banco que estão inibidos de exercer funções.
- Sente pena de que o legado que deixou esteja agora fragilizado?
- Sinto pena de que o banco não tenha o valor que tinha e tenha perdido posições no exterior.
- Qual é o valor justo do banco?
- Ninguém pode dizer qual é o valor justo, tantas são as variáveis que actuam sobre o título. O que posso dizer é que o banco não vale só os dois mil milhões e tal de euros.
PERFIL
Madeirense nascido em 1935, licenciou-se em Engenharia no Porto. Mudou de vida em 1970 e ingressou no Banco da Agricultura. Durante o PREC, foi para Espanha. Regressou três anos depois à administração do BPA. Américo Amorim convenceu-o a fazer parte de um banco de empresários do Norte que viria a ser o BCP. Desde 1985 até 2005 foi o patrão do banco que se tornou na maior instituição privada nacional. Escolheu Paulo Teixeira Pinto para sucessor. Depois de perder o poder no BCP, este católico, supranumerário do Opus Dei, vive um longo purgatório.
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