Entrevista: Manuel Alegre
"Se fosse presidente vetava Código Laboral" (COM VÍDEO)
Manuel Alegre acredita na segunda volta e não poupa o adversário, acusando-o de estar refém do PSD para provocar legislativas. O candidato apoiado pelo PS elogia o esforço do Governo para afastar o FMI.
Por:Manuela Teixeira
Correio da Manhã - Como é que tem corrido a campanha. Os dirigentes do PS e do BE têm convivido bem estes dias?
- A candidatura é minha. É minha. É autónoma e suprapartidária. Tenho estes apoios todos mas não estou refém de ninguém. E é uma dúvida que tenho sobre a candidatura de Cavaco Silva, que ultimamente ameaçou com uma crise política para agradar aos partidos que o apoiam. Como factor de estabilidade social, ele também não se demarca do projecto estratégico do seu partido para descaracterizar o Estado social.
- Acredita que Cavaco Silva quer dissolver o Parlamento?
- Ele é que falou em eventual crise política. O que quis dizer com isso? Quis deixar pairar a ideia de que é ele próprio quem irá provocar essa crise. Ao fazê-lo, transformou-se num factor de instabilidade. Não pode mais falar que é o garante da estabilidade. Está quase refém dos programas dos dois partidos que o apoiam.
- Se fosse presidente, teria vetado alguns dos diplomas do Governo que Cavaco Silva promulgou?
- Há um diploma que votei contra, e que se fosse presidente, a menos que tivesse outras informações, vetaria: o Código Laboral. Isto porque a nossa Constituição protege o elo mais fraco, que são os trabalhadores. Pode ser até uma lacuna, pode estar errado, mas é o que está na Constituição. Aquele Código Laboral, que agora apesar de tudo deve permanecer, altera os direitos laborais, fazendo desaparecer a norma do tratamento mais favorável, a desfavor dos trabalhadores. Tenho muitas dúvidas sobre a sua constitucionalidade.
- E em relação ao Orçamento do Estado com cortes salariais na Função Pública e com redução do abono de família?
- Repare, os países endividaram-se para salvar o sistema bancário e também para tomar medidas que atenuassem os efeitos da crise. Na União Europeia, estão a tomar medidas e receitas que no meu entender não vão resolver a crise. São as mesmas receitas que estiveram na origem da crise mundial.
- Mas sobre os cortes salariais e nos abonos?
- Eu já critiquei as políticas de austeridade e de recessão que se aplicam em todos os países, sobretudo nos países mais periféricos.
- E o que recomenda?
- Aquilo de que precisamos é de políticas de crescimento, de emprego, e seguramente de uma mudança do desenvolvimento económico.
- Lamenta os incidentes ocorridos na manifestação frente à residência de José Sócrates, anteontem?
- Lamento e critico. Acho que as pessoas têm o direito de protestar e acho que os dirigentes sindicais, em princípio, não devem ser detidos Mas também acho muito estranho a manifestação ter sido feita no dia em que o primeiro-ministro estava fora do País. E também em vésperas de eleições presidenciais. Pode ser uma coincidência, mas também pode não ser.
- Voltando à campanha, sente que pode conquistar a segunda volta?
- Acho que estamos perto da segunda volta, apesar de todas as coisas que por aí vão aparecer com números estapafúrdios. Estou habituado. Já aconteceu na última campanha, na véspera de eleições. Apareceu uma sondagem que dava a Cavaco Silva sessenta e tal e a mim dava 13. Depois tive quase 21.
- E tem-se sentido confortável entre os apoios do PS e do BE?
- Sinto-me tão confortável como se deve sentir o candidato Cavaco Silva com os apoios do PSD e do CSD-PP. Porque é que ninguém fala dos apoios partidários que ele tem? Os dois partidos juntos também já votaram leis que alteraram os costumes em Portugal e contra os quais se manifestou Cavaco Silva.
"GOVERNO TENTA RESISTIR AO FMI"
CM - Como analisa o comportamento do Governo nos últimos dias a tentar captar investimento estrangeiro?
- Acho que é o certo. O Governo está a tentar resistir até onde é possível àquilo para onde estão a tentar empurrá-lo, que é encostar Portugal à parede e obrigá-lo a recorrer ao FMI.
- E como encara a eventual entrada do FMI em Portugal?
- Sabe, poucas pessoas têm explicado o que significa a entrada do FMI. Significa o despedimento de milhares de funcionários, a redução do salário mínimo nacional, cortes brutais nas pensões e o agravamento das condições de vida dos portugueses. E acho muito estranho que haja portugueses a desejar a entrada do FMI em Portugal.
- Que explicações tem para isso?
- Duas. Da parte dos políticos, a pressa de ir para o poder. Da parte de outros ligados aos grandes interesses económicos, esses sabem que se o FMI entrasse em Portugal iria aplicar aquele programa radical que a direita política e económica gostariam de aplicar mas que não tem coragem de fazer, porque se o submetessem a votos sabem que perderiam. Ninguém ia votar a favor da extinção do Serviço Nacional de Saúde, da Segurança Social, da extinção da escola pública. Ninguém vota a favor disso.
"CAVACO VITIMIZA-SE NO CASO BPN"
CM - O caso desta campanha de Cavaco foi o BPN e vieram agora a público novos dados sobre a compra da urbanização da Coelha. Muitas dúvidas ainda ?
- Está por esclarecer. Permanecem dúvidas. Acho que ele devia esclarecer. Ele auto vitimiza-se, diz-se vítima de calúnias, mas as perguntas devem ser respondidas.
- E acha que não responde?
- Não. Se ele não responde, deixa dúvidas. E é muito mau para um candidato que até pode ganhar as eleições (espero que não ganhe) deixar permanecer essas dúvidas, porque fica diminuído.
- Pode sempre adiar para depois das eleições?
- Adiar é uma coisa absurda. Não se adia respostas sobre a transparência democrática dos actos de um candidato à presidência.
"NÃO INSULTEI NINGUÉM. CRITIQUEI"
CM - Esta campanha viveu muito do insulto?
- Eu não insultei ninguém. Fiz críticas, mas quem considera as críticas um insulto é porque não compreende a democracia, do combate político, da troca de ideia, do contraditório. E isso é que é um insulto à democracia.
- A campanha foi mobilizadora?
- Temos visto, e mais então nestes últimos dias, uma grande mobilização do povo socialista à volta da minha candidatura.
É para RIRrrrrrrr....