Entrevista
Miguel de Albuquerque: "A Madeira precisa mudar de ciclo político"
Miguel de Albuquerque diz que região autónoma vai passar por algumas dificuldades e que tem de haver mudanças. Não exclui uma candidatura a líder do PSD regional
Por:Manuela Moura Guedes/Paulo Pinto Mascarenhas
Correio da Manhã - Alberto João Jardim tem condições para continuar à frente da Madeira nestas condições, com um buraco de seis mil milhões e depois de andar a esconder a dívida?
Miguel de Albuquerque - Foi eleito recentemente numas eleições e por isso tem legitimidade democrática para cumprir um mandato. Foi sufragado. Do ponto de vista de legitimidade democrática e institucional, é indiscutível que tem condições.
- Mas escondeu a dívida antes das eleições...
- Relativamente à questão da dívida da Madeira, é uma análise que deve ser feita com dados objectivos. Tive o cuidado de ver a conta geral do Estado de Junho de 2011, e, quando falamos dos seis mil milhões, estamos a falar da dívida directa e indirecta da Madeira. Essa dívida é de facto elevada, mas a que o Estado deve, directa e indirecta, é de 332 mil milhões de euros.
- Onde quer chegar?
- Se compararmos os 332 mil milhões da dívida do Estado e os 6328 mil milhões da Madeira em termos de PIB, a nacional dá 128% do PIB nacional; a madeirense dá 121% do PIB regional.
- O PSD nacional queixa-se do desvio colossal que José Sócrates deixou no ano de 2011. Não devia o PSD regional queixar-se desta omissão de uma dívida na ordem dos 450 milhões de euros que foi escondida quatro meses?
- Parece que toda a gente está surpreendida por Portugal ter uma dívida ou a Europa ter uma dívida. A dívida foi contraída dentro de uma perspectiva de baixa de juros, quer a dívida privada, quer a pública.
- O PS de José Sócrates também desculpava a crise em Portugal com a crise internacional...
- Não estou a dizer que a dívida é boa ou má, estou a analisar o que se passou. Houve dinheiro que foi mal gasto, quer a nível regional, quer nacional, num conjunto de obras perfeitamente estúpidas. Estou a lembrar-me da A13, que não tem nenhum sentido ao nível regional...
- E na Madeira?
- Também temos obras absurdas, com certeza que sim...
- Quais?
- Vou dar-lhe um exemplo: algumas obras que se fossem hoje não eram feitas, alguns centros de saúde, feitos em freguesias no interior, na perspectiva de apoio local das populações, com as vias rápidas, não têm nenhum sentido existirem essas infra-estruturas.
- E o que diz sobre as parcerias público-privadas?
- Algumas obras das PPP tiveram consequências nefastas, como também no continente.
- Nos contratos, derrapagens...
- Sobretudo na perspectiva de que a obra pública era, só por si, dinamizadora do crescimento económico e da economia.
- Como é que vê o acordo tornado público por Alberto João Jardim?
- A Madeira vai atravessar algumas dificuldades. Mas é preciso olharem a Madeira num contexto de alguma particularidade. A Madeira é ultraperiférica. Não consegue fazer uma economia de escala continental e tem de ter quadros de atractividade dos investimentos. A legislação que foi aprovada no sentido de penalizar o centro internacional de negócios foi extremamen-te prejudicial para a região e para Portugal. Não sei porque aprovaram esta legislação. Faz-me lembrar um pouco aquelas seitas americanas do suicídio colectivo.
- É normal o presidente do Governo Regional da Madeira estar no poder há mais de 30 anos?
- Tem de perceber porque é que ele está lá. Está lá porque o povo quis que ele continuasse.
- Mas concorda ou não que é demasiado tempo?
- Defendo e defendi que a região neste momento precisa de mudar de ciclo político. Não tenho dúvidas sobre isso. Mas há outra questão que é esta, dentro do regime democrático em que vive, qualquer cidadão pode ter ou não direito a candidatar-se várias vezes. Esse direito pode ser limitado ou não. A questão da limitação de mandatos impostas por lei tem vantagens ou não tem vantagens?
- Do seu ponto de vista, tem?
- Tem vantagens e também inconvenientes.
- Do seu ponto de vista, tem vantagens porque o senhor se podia candidatar e deixava de ter como oponente o dr. Jardim...
- Eu não me candidatei mas posso candidatar-me. Não podemos gerir um Estado democrático em função de pessoas...
- Mas esse é o problema, dentro do PSD é esse o problema...
- Mas ele está lá, de facto.
- Mas como é que o PSD da Madeira não apresenta candidatos alternativos...
- Não rejeito um dia, pode ser no próximo congresso, apresentar uma candidatura. O dr. Alberto João Jardim pode estar lá e eu posso candidatar-me...
- Agora vai haver muito menos dinheiro para governar, vai ser mais fácil retirar o dr. Jardim...
- É difícil governar num contexto de dificuldade. Este processo de ajustamento inevitavelmente vai levar a que apareçam alternativas de políticas.
"OPOSIÇÃO É INCOMPETENTE POLITICAMENTE"
CM - Porque não se criaram alternativas a Alberto João Jardim no interior do PSD?
M. A. - Nem na oposição. Muitas vezes, a questão do défice democrático também foi uma desculpa para a incompetência política da oposição, que nunca compreendeu a questão regional, a dialéctica regional, no bom sentido do termo, entre o centro e a periferia. É um pouco o que acontece com Portugal em relação à União Europeia. O espírito de autonomia sempre existiu. Nunca tive nenhum problema em dizer o que é que achava e também levei a resposta, mas quem está na política dá e leva - e tem de aguentar.
PERFIL
Miguel de Albuquerque nasceu no Funchal a 4 de Maio de 1961. Advogado, é presidente da Câmara Municipal do Funchal desde Setembro de 1994, eleito pelo PSD. Membro do conselho directivo da Associação Nacional dos Municípios Portugueses, é casado e tem cinco filhos.
há que acabar com o regime psd na madeira. Não sei como os madeirense aguentam o alberto jardim, que é só bom para ele e para os amiguinhos, os os madeirenses vivem na miséria...