Opinião
Rostos que marcam as tardes
As tardes televisivas são monótonas. Entre telenovelas, concursos e programas de entretenimento, a sopa da pedra está feita à vontade dos fregueses.
Por:Fernando Sobral
Não há volta a dar a este buraco negro da programação. Muda-se o nome dos programas, os apresentadores mostram o seu profissionalismo adaptando-se a todas as alterações de pormenor, mas os fins justificam sempre os meios. Não é pois por acaso que vemos duas das apresentadores mais competentes da televisão nacional, Fátima Lopes e Conceição Lino, a darem o corpo e a alma por conteúdos que afogam qualquer tentativa de originalidade. Mas essa é a sua missão possível, mesmo que às vezes pareça impossível.
Na SIC, Conceição Lino, com ‘Boa Tarde’, tem mais dificuldades do que a sua concorrente que trocou Carnaxide por Queluz. Por uma razão muito simples: Lino vem do universo da informação e vê-se que ainda tem grandes dificuldades com o seu novo papel.
Antigamente ela era a linha de conexão entre reportagens que olhavam para a sociedade portuguesa. Agora ela é a interlocutora de pessoas que querem dar a conhecer as suas próprias histórias e necessitam de alguém que as oiça e lhe faça soltar a língua ainda mais. Acredito que Conceição Lino, com o tempo, será capaz de passar despercebida no meio das histórias que a cercam e lhe definem o programa. Mas nota-se que ainda não conseguiu dominar a criatura como criadora que deveria ser. Fátima Lopes tem, pelo contrário, uma longa experiência a cruzar-se com o país real. Daí a sua adaptação fácil ao ritmo mais alucinante de ‘Agora é Que Conta’.
O que importa ali é conquistar dinheiro, mesmo se as provas que cada um tem de ultrapassar para o conseguir sejam muitas vezes de uma tolice completa. Mas é aí que as capacidades de Fátima Lopes são visíveis: ela, num registo diferente do que tinha na SIC, controla o desvario que por vezes se instala. É óbvio que não é este o programa a que Fátima Lopes aspira: ela é boa a ouvir os outros. Um dia a TVI vai ter de a colocar a fazer um programa desses. No horário nobre.
O CULTO
'A Balada de Nova Iorque'
Depois do sopro de frescura nas séries policiais que foi ‘Hill Street Blues’ (traduzida, na altura, em Portugal de forma infantil como ‘A Balada de Hill Street’), Steven Bochco aventurou-se ainda mais com ‘NYPD Blues’ (traduzida entre nós por ‘A Balada de Nova Iorque’, mostrando que por cá os erros são para se repetir de forma masoquista). Os ritmos, as histórias cruzadas, os mistérios urbanos e os dramas emocionais refinaram-se e a série, agora repetida (depois de em tempos ter sido exibida na SIC a altas horas da madrugada de forma irregular), continua a ser uma referência no universo dos policiais televisivos. Para isso contribui também, e muito, a presença de um grande actor (Dennis Franz) que, no início, teve de compartilhar o palco com alguém que nunca convenceu (David Caruso, que foi para o ‘CSI Miami’). Um clássico.