Traduzir é fazer a ponte
Tânia Ganho, tradutora, Depois de dez anos a reescrever os livros dos outros (de Agatha Christie a Anais Nin), escreveu o seu.
Por:Dina Gusmão
Correio da Manhã – Não é um romance cor-de-rosa, mas parece. Porquê esta capa e este título?Tânia Ganho – O livro, de facto, não é cor-de-rosa, muito pelo contrário, mas penso que a capa, apesar dos tons e da leveza, deixa margem para uma certa ambiguidade e ironia. Quanto ao título, ‘A Vida Sem Ti’, abrange as questões de fundo exploradas no livro: a vida sem a família, sem o país de origem, sem raízes e referências, sem casa e sem independência. Este ‘tu’ do título não se reduz a um amante que se perdeu… É mais um dos equívocos em que assenta o texto.
– De leitora compulsiva a escritora em estreia, de estudante de letras a tradutora de profissão, a sua relação com os livros é mais um caso de amor do que de paixão...– É, sem dúvida, um caso de amor. Já tive muitas paixões na vida, como a dança ou a capoeira, que experimentei com um entusiasmo desenfreado e depois deixei para trás. Os livros são a única coisa material de que não me consigo separar. O resto dou ou deito fora em grandes ‘ataques de arrumação’, mas a minha biblioteca sobrevive sempre.
–“Escrito em madrugadas de insónia e isolamento”, disse. Por disciplina laboral ou indisciplina mental?– Pelas duas! O isolamento é um imperativo profissional, mas, acima de tudo, é uma necessidade, preciso de espaço e silêncio para viver. Quanto às insónias, são fruto de um grande caos mental, ando sempre com a cabeça cheia de frases e imagens desconexas que não me deixam dormir enquanto não as apontar num bocado de papel.
– A tradução serve de metáfora ao romance?– Traduzir é fazer a ponte entre duas línguas, duas culturas e toda a história do livro assenta nessa passagem de um país para outro, de uma cultura para outra, com todos os equívocos que por vezes isso acarreta. ‘A Vida Sem Ti’ é, essencialmente, a história de uma mulher que sai de Portugal cheia de convicções e que, ao descobrir-se estrangeira, dá por si a questionar todas as suas premissas e certezas. A tradução é esse constante interrogar o outro para se descobrir a si mesmo.