Ao ouvir ontem os gritos de desespero da filha, de 4 anos, António Baptista não hesitou: saltou do barco no qual seguia num convívio da comunidade Taizé (grupo religioso) e tentou, a todo o custo, resgatar Filipa, que tinha caído na albufeira da Caniçada, no Gerês. O homem, de 33 anos, não resistiu e morreu antes de conseguir salvar a criança. A menina acabou por ser resgatada por um amigo da família.
Ao fecho desta edição, o corpo de António, residente em Sátão, Viseu, continuava desaparecido. Já a pequena Filipa foi transportada para o Hospital de São Marcos, em Braga. A menina não sofreu ferimentos, mas encontrava-se em estado de choque. " Foi horrível o que nos aconteceu. A menina está a sofrer muito. É uma grande tragédia", contou ao CM uma amiga da família.
O acidente aconteceu por volta das 12h55, altura em que António dava um passeio de barco com a esposa e as duas filhas, de 4 e 6 anos. A família tinha saído bem cedo de Viseu para se juntar ao grupo, de cerca de 20 pessoas, pertencente à comunidade Taizé.
Ao que o CM apurou, sem que ninguém se apercebesse, Filipa abriu uma das janelas do barco, desequilibrou-se e caiu à água. Desesperado, o pai da menina atirou--se de imediato, tentando alcançá--la. A criança tentou a todo o custo dar aos braços, evitando afogar-se. Ao ver a menina cada vez mais aflita, Paulo Costa, que seguia no barco e que já foi nadador-salvador, saltou também para a água e conseguiu resgatar Filipa. Os passageiros do barco, que parou apenas a cerca de 50 metros do local da tragédia, deixaram de ver António, cujo corpo desapareceu no rio.
"Foi tudo muito rápido. A menina caiu e ele saltou logo para a salvar. Fecho os olhos e ainda consigo ver tudo, ainda consigo vê-lo aflito a tentar resgatar a filha", contou ao CM a esposa de Paulo, que assistiu a toda a tragédia.
VÍTIMA ABRIU ESCRITÓRIO HÁ UM MÊS
António e a família viviam em Sátão, Viseu, há já alguns anos. O homem, que tinha um curso de contabilista, tinha inaugurado há cerca de um mês um escritório de consultadoria financeira juntamente com um amigo. O escritório de António integrava um grupo de agências que pertencem à empresa Decisões e Soluções. A esposa da vítima trabalhava como professora. No entanto, não conseguiu colocação neste ano lectivo.
"Como ela é professora, a situação financeira deles era sempre muito instável, mas andavam muito entusiasmados porque, com o novo emprego do António, as coisas pareciam começar a correr melhor. Agora ela ficou sem marido, sem emprego e com duas filhas", disse um vizinho do casal.
As buscas para encontrar o corpo prosseguem hoje.
"A MENINA SÓ CHORAVA, ESTAVA EM CHOQUE"
Os minutos de aflição que passou no rio deixaram a pequena Filipa, de 4 anos, em estado de choque. A criança ficou muito assustada e não conseguia parar de chorar. "A menina estava deitada na maca e só chorava. Não queria que a tirassem da ambulância. Estava ainda muito assustada", disse ao CM António Rodrigues, que viu a criança a entrar no Hospital de São Marcos, em Braga.
Ainda bastante abalada por assistir à morte do marido, a mãe da menina acompanhou-a até ao hospital, tendo ficado sempre ao seu lado. A irmã mais velha de Filipa ficou com amigos dos pais.
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Que Deus o tenha em paz isto sim é um PAI a sério que infelizmente não sobreviveu para a criar...