O agrupamento de escolas Pedro D’Orey Cunha tem um banco alimentar para apoiar os mais carenciados. Carla Pietra, funcionária, ajuda na recolha. O director, António Gamboa, diz que em 2009 foram doados 400 kg de comida.
As escolas estão a detectar cada vez mais casos de novos pobres. Trata-se de alunos da classe média--baixa sem direito à Acção Social Escolar (ASE) porque os rendimentos familiares estão acima dos valores mínimos necessários (basta ganhar 649 euros para ficar de fora), mas que ainda assim revelam grandes carências.
Na EB 2,3 Pedro D’Orey Cunha, na Damaia (Amadora), junto aos bairros Cova da Moura e 6 de Maio, são estes os casos que mais preocupam. "Temos vindo a detectar sinais preocupantes, como o facto de 17 alunos que não estão integrados nos escalões da ASE não terem ainda livros escolares, dois meses após o início das aulas. É uma situação nova", diz ao CM António Gamboa.
O director do agrupamento acrescenta que "nos miúdos dos bairros a pobreza é visível, mas estes novos pobres envergonhados nem sequer pedem ajuda". A escola tem mais de 500 alunos. "O número de 17 pode parecer reduzido, mas é quase 5% dos alunos da escola. São 17 famílias que podem estar em dificuldades. Estamos a mobilizar-nos e vamos lançar uma bolsa de empréstimo de livros."
A prioridade passa pelos novos pobres. "A crise ainda não atingiu as crianças dos bairros carenciados. Há muitas instituições a trabalhar nos bairros, por vezes até desperdiçando recursos e promovendo a pedinchice profissional. E a solidariedade entre moradores é maior do que na malha urbana". Ainda assim, Maria João Teotónio, responsável pela ASE na escola, afirma que há casos de fome: "Por vezes, fornecemos o pequeno--almoço." A dirigente revela que 60% dos alunos são apoiados pela ASE. E aponta outro sinal da crise: "Desde Setembro, 13 famílias pediram a reavaliação do escalão, pois os rendimentos diminuíram".
SESIMBRA AJUDA A PAGAR ATL
O concelho de Sesimbra tem vindo também a sentir a crise, em especial nos meses de Inverno, uma vez que no Verão a hotelaria absorve muita mão-de-obra. As escolas do 1º ciclo, em conjugação com a autarquia, procuram ajudar. Uma das formas é através da comparticipação para o pagamento dos ATL (Ateliês de Tempos Livres) a famílias carenciadas.
A autarquia identificou carências e decidiu contribuir com o pagamento de 90 por cento dos custos. No ano passado foram identificadas 22 famílias em condições de receber esse apoio. Este ano, as situações ainda estão a ser avaliadas, mas houve "um aumento do número de candidaturas", segundo a vereadora Felícia Costa. Na EB nº 1, os encarregados de educação também têm contribuído. "Baixámos a mensalidade de 80 para 70 euros. O ano passado tínhamos quatro meninos cuja mensalidade era comparticipada pela câmara", afirma Sandra Pinto, presidente da Associação de Pais. O alerta vai para a pobreza envergonhada: "Alguns pais preferem não mostrar que têm necessidades e pagam, mesmo com grande sacrifício." Graça Cardoso, coordenadora da escola, revela que 40 por cento dos 300 alunos têm direito a apoios da Acção Social Escolar.
Mas o sistema pode gerar injustiças. "Basta os pais ganharem dois ordenados mínimos para não terem direito ao escalão A, enquanto outros não declaram o que ganham e integram o escalão A."
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Nem no tempo do Dr.Oliveira Salazar.Ao que chegámos.