Desemprego: Empresa Delphi da Guarda dispensou meio milhar de pessoas
“O Natal mais triste na vida dos trabalhadores”
"É o Natal mais triste da vida de 500 trabalhadores que foram despedidos", referiu ontem, em lágrimas, Helena Afonso, de 41 anos, funcionária da Delphi, da Guarda, que pediu para ser incluída no grupo que a empresa dispensou.
Por:Luís Oliveira
Helena diz que tomou esta atitude "como um grito de revolta" e "solidariedade", sobretudo para com as três irmãs que foram despedidas – Cristina Afonso, de 42 anos, Estela, 43, e Sílvia, 31. "Não sei se foi um acto de coragem. Foi de revolta. Vinha sempre com as minhas irmãs e trazia o carro cheio. Custava-me trabalhar aqui sem a companhia delas", adianta Helena Afonso, que trabalhou 19 anos na Delphi e está "preocupada" com a situação de uma das irmãs, porque o marido também está desempregado.
Cabisbaixos e de lágrimas nos olhos, 115 operários da Delphi realizaram ontem o seu último dia de trabalho numa fábrica que está "ferida de morte" e que nos tempos áureos chegou a empregar três mil pessoas. Ontem foi mais um dia de despedida – do posto de trabalho e dos colegas – num processo de despedimento que começou na semana passada e fica concluído em Março. Dos 900 trabalhadores, 500 receberam carta de despedimento. No entanto, os 400 que ‘sobreviveram’ estão "apreensivos" com o futuro.
"Vai ser o Natal tristonho, sem sentido. Vamos comemorar o quê? A nossa miséria!!!", o desabafo de Isabel Cabral, de 47 anos, 17 dos quais ao serviço da Delphi, espelha o sentimento generalizado dos operários dispensados da fábrica de cablagens para a indústria automóvel. "Parte da minha vida passei-a dentro destas paredes e agora fui despedida. Ganhei aqui uma doença – tendinite crónica – para o resto da minha vida e não tenho perspectivas de arranjar outro trabalho porque não há", adiantou Isabel Cabral, que teve a "sorte" de o marido não ter sido incluído no lote. Mas Filipa Pissarra, de 28 anos, foi. Diz que na altura em que recebeu a carta de rescisão ficou "chocada" mas agora está "consciente" do facto. "A vida continua e vou tentar novo trabalho, se não vou ter de emigrar", adiantou a jovem. António Santos, de 45 anos, trabalhou 21 na Delphi como técnico e agora vai para o desemprego. "Estou desolado porque antevejo grandes dificuldades. Na região não há alternativas de trabalho", lamentou o operário.
A fábrica da Delphi, localizada na Guarda-Gare, iniciou a actividade em 1994, substituindo no edifício a Renault. Desde essa altura que foi a maior empregadora do distrito da Guarda. A partir de Março só vai contar com a colaboração de 400 pessoas.
DEPOIMENTOS
"O MEU FILHO TAMBÉM ESTÁ DESEMPREGADO", Maria Mesquita, 47 anos
"Dei muito de mim a esta fábrica. Vou ficar sem trabalho e adivinho grandes dificuldades. Tenho um filho que também está desempregado, pelo que vamos sentir a falta do meu ordenado."
"TRABALHADORES NÃO FORAM BEM TRATADOS", Ester Dias, operária, 53 anos
"Depois de 29 anos de muito trabalho, foi o meu último dia na fábrica. Estou revoltada porque os trabalhadores não foram bem tratados em todo o processo. Sou velha para arranjar trabalho e nova para a reforma."
"POLÍTICOS FIZERAM POUCO PELOS TRABALHADORES", José Ambrósio, Sindicalista
"É um dia negro para a Guarda. Esta foi uma fábrica emblemática que está a morrer aos poucos. Os políticos fizeram pouco pela defesa dos trabalhadores."
550 MIL À PROCURA DE EMPREGO
Portugal vai entrar em 2010 com perto de 550 mil pessoas sem trabalho, o que corresponde a uma taxa de desemprego superior a 10 por cento, o valor mais alto de três décadas.
A avaliar pelas previsões das organizações internacionais, serão precisos longos meses para inverter esta tendência. Um facto que já foi reconhecido pelo presidente do IEFP, Francisco Madelino.
CARTA DE RESCISÃO NO CABAZ
A empresa Dura, sediada em Vila Cortez do Mondego, também na Guarda, que fabrica componentes para a indústria automóvel, dispensou vinte dos actuais 143 trabalhadores, que receberam a carta de despedimento na mesma altura do cabaz de Natal, no último dia de trabalho antes de irem de férias.
A atitude da entidade patronal, que justifica a medida porque "está a prever que em 2010 o ramo automóvel vá ter uma quebra", foi entendida pelos operários como uma "ofensa". Os trabalhadores saíram da fábrica com o cabaz de Natal numa mão e com a carta de despedimento na outra", referiu Sandra Sousa, da comissão de trabalhadores e dirigente do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Metalúrgicas e Metalomecânicas de Aveiro, Viseu, Guarda e Coimbra. A sindicalista adiantou ainda que a direcção da fábrica "dispensou os operários mais velhos, que estão contratados há cinco ou seis anos".
Uma das despedidas foi a esposa de um funcionário que também foi dispensado da Delphi. O casal fica desempregado e sem fontes de rendimento.
A firma aplicou este ano, entre Março e Julho, a medida de redução temporária de trabalho, que foi justificada com a crise que atingiu o sector automóvel a nível mundial e provocou uma redução nas encomendas.
PORMENORES
SALÁRIO MÍNIMO
O Conselho de Ministros aprovou ontem a fixação do salário mínimo nacional em 475 euros para 2010.
POSIÇÃO EUROPEIA
Os dados da Comissão Europeia sobre o desemprego colocam Portugal a meio da tabela entre os 27 Estados-membros. Bruxelas prevê a recuperação para 2011.
ESPANHA CAMPEÃ
O país vizinho é o campeão do desemprego na Europa com uma taxa próxima dos 20 por cento.
OUTROS CASOS
LEONI
A fábrica de componentes para carros vai fechar em Viana do Castelo despedindo 600.
PIONEER
Fechou portas no Verão e deixou 127 trabalhadores do Seixal sem alternativa para o desemprego.
LEAR
A fábrica de capas para bancos de automóveis vai encerrar e despedir 200 trabalhadores.
QIMONDA
A fábrica de Vila do Condo despediu 402 funcionários que se encontravam em lay-off.
Desemprego,e fruto de uma ma formacao proficional.So sabem aquilo que nunca aprenderam!!...